Carta de despedida do ex-político arrependido

Eu era político, comecei como vereador na minha pequena cidade. A situação estava difícil e aproveitei minha popularidade para me eleger, prometendo ajudar as pessoas da minha cidade e se possível da região. Claro que tive que comprar votos, com cestas básicas, materiais de construção e essas coisas de sempre…

Fui um dos mais votados, apoiado pelo desespero do povo que já desacreditava em todos que haviam sido eleitos antes. Era um político ativo, ligado às minhas bases e filosofias… sonhava mesmo em fazer do mundo um lugar melhor…

Mas fui descobrindo as mutretas por debaixo do pano… repasses de impostos, contruções superfaturadas, concorrências fraudadas e tudo mais. E aí me jogaram na parede: ou você racha com a gente ou a gente racha tua cara (me lembro como se fosse hoje…).

Assim, com a confiança ganha e minha simpatia, logo me tornei prefeito. Mas logo depois, como o candidato a deputado estadual estava afastado de suas funções, aproveitei a brecha e joguei mais alto, ganhando mais visibilidade e é claro, mais dinheiro.

Minha campanha foi financiada pela máfia dos bingos e também por outras empresas que comandavam a associação comercial da cidade. Não dá para acreditar no poder e na crueldade desta gente.

Quanto mais entrava dinheiro, mais eu me via afundado no mar de lama. Até traficantes eu encobria, já no meu mandato a deputado federal. Jogos, drogas, impostos, futebol, mortes encomendadas… tudo passava por mim. Claro que nesse ponto minha família já estava mais acostumada com as constantes ligações anônimas de ameaças, mas minhas costas eram mais quentes.

A minha vida de senador era perfeita, casas de luxo, viagens ao exterior, carros importados, prostitutas de luxo… mas ainda sim o povo me amava! E quando ia ser escolhido pelo meu partido para sair presidente, caí numa silada armada pelo meu opositor.

Pensei em jogar a sujeira toda no ventilador, mas com certeza me matariam. Então usei alguns contatos para forçar que me inocentassem, pagando na mesma moeda. É simples, com todos assim no mesmo barco, que nunca afundará.

Tinha meus olheiros na imprensa e é claro, pousava com classe nas revistas de artistas ao lado das modelos que havia pago – e bem – para me acompanharem às festas. Da imprensa também saíam as reportagens maquiadas, sempre bem recompensadas.

Depois de tudo, ainda não havia perdido a esperança de ser o representante maior do povo, até porque o Presidente já estava na corda bamba. Quem mostrasse mais poder de fogo ganharia a parada. Mas ainda sim, ninguém nunca saía perdendo. Inimigos mortais e ao mesmo tempo amantes, assim gosto de comparar. Sempre tinha vaga para todos na mesa do jogo.

Quando estava crescendo e quase passando o meu concorente nas pesquisas, tive um breve momento de lucidez, enxergando o que realmente importava na vida. E disto já não havia sobrado nada. Havia perdido família, amigos, meu passado, minha fisolofia, meus sonhos. Andava de olhos vendados. E assim resolvi escrever esta carta.

Não quero que meus filhos se envergonhem de seu pai corrupto e ladrão. Não quero que eles usem o dinheiro que roubei tanto tempo do nosso pobre povo. Não quero mais dormir com essa consciência que me atormenta todo o tempo e com as ameaças constantes de políticos, criminosos, mafiosos e toda essa raça com que me envolvi até o pescoço.

Aliás, não dormirei mais… acaba aqui a vida de um político corrupto e envergonhado, infelizmente o único que conheci e provavelmente o único que irá existir no nosso país.

Que Deus me perdoe… Adeus.

(texto fictício escrito por Michel P. Zylberberg e publicado no blog
http://naotemcomoesquecer.wordpress.com/ )

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