Eu sabia…

Não gosto muito de falar a frase título deste texto, mas as vezes preciso. Trago isso comigo desde que me conheço por gente, esse pressentimento meio confuso e exporádico de fatos marcantes e até inesperados da minha vida. E foi assim que surgiu algumas das cicatrizes que carrego pelo corpo e que causam interesse e curiosidade em quem vê.

Muitas vezes me disponho a contar parte da história, outras vezes digo que foi um acidente e desvio o assunto e para algumas pessoas eu simplesmente falo: foi um tiro. ‘Simplesmente falo’ ficou meio paradoxal, eu sei. Perguntas como: Mas onde? Como? Por que? surgem com a mesma rapidez como tudo aconteceu.

Sempre pensei em escrever a respeito e esclarecer tudo, até porque milhares de versões e boatos pipocaram, ainda mais com o fato tendo ocorrido em uma cidade pequena como Itajubá-MG. Mas preferi me resgardar e me recuperar com minha família e os poucos e verdadeiros amigos que sabiam da minha inocência e prestaram solidariedade. Recuperação relativamente rápida e sem seqüelas, graças (me privarei do ‘à Deus’ para não me envolver em religião, mas sem preconceitos).

Minha adolescência toda carreguei comigo alguns pensamentos que considerava paranóia e que sempre ressurgiam vez ou outra na minha vida. Pensamento como o de ter uma morte prematura (por volta dos 20) por acidente automobilístico ou tiro ou carregando seqüelas como paralisias e outros danos sérios à saúde. Acabei passando por isto, mas creio que a minha insenção de culpa no fato e “ficha limpa” me renderam mais uma chance de viver.

Uma noite eu estava jogando sinuca no antigo Valdomiro com mais um amigo e quando voltávamos para casa eu parei para sacar dinheiro na agência do Banco do Brasil da praça central e o meu amigo foi até um outro carro próximo com um pessoal que eu conhecia mas não eram meus amigos.

Nos convidaram para ir até uma casa onde um pessoal estava reunido, no bairro do Pinheirinho. Como eu estava cansado e precisava acordar cedo para viajar, não queria ir. Mas esse meu amigo queria dar uma passada rápida e um alô para o pessoal e aí decidimos no cara-ou-coroa, coisa comum na época. Ele ganhou.

Chegando em frente a casa, todo pessoal estava em pé do lado de fora conversando e ficamos dentro do carro. Não cheguei a ver muito bem quem estava presente e não sabia de quem era a casa, mas era uma das poucas do lotamento, próximo ao bairro BPS. Fiquei sabendo depois que era a casa do tio de um dos rapazes que havia viajado e deixado a chave com ele.

Logo em seguida um rapaz chamado Wéscley (irmão-gêmeo chamado Wellington) – dos quais eu havia estudado junto no primário no Colégio Sagrado Coração de Jesus e depois perdido total contato – se aproximou do carro com uma carabina de grande calibre, cano-duplo, carregada e aberta nas mãos nos mostrando. Como eu era atirador federado, participava de competições e entendia de armas, resolvi pegar uma das balas para ver e mostrar para meu amigo que estava dentro do carro.

Estávamos conversando e logo em seguida uma fortíssima explosão. Cheiro intenso de pólvora e uma fumaça escura dentro do carro. O Wéscley estava a uns 2 metros do carro, um pouco para trás, eu não havia visto ele fechando a arma e apontando. Talvez ele estivesse tentando mostrar para os amigos a brincadeira estúpida. Aí que aconteceu tudo, em milésimos de segundo.

Sem perder a consciência e sem dor alguma, vi meu braço direito caindo lentamente. Gritaria fora do carro e perguntei para meu amigo se ele havia sido atigido e ele rapidamente viu que estava bem e quando olhou de volta para mim seu rosto se transformou e eu logo percebi, havia também atingido meu pescoço.

Subtamente ele deu a volta por fora do carro e assumiu o motorista, eu pulei por dentro do carro para o banco do passageiro e encolhi as pernas, tentando estancar ao máximo o sangue que escorria cada vez mais. Falava muito para saber se havia pego a traquéia, mas vi que não e fiquei mais calmo. Uma frieza estranha, um pensamento incomum numa hora dessa de que “eu sabia que iria acontecer, mas vai ficar tudo bem“, contrastando com as frases tensas e nervosas do meu amigo dizendo “você não vai morrer!“.

Antes de partirmos para o hospital ninguém mais se dispôs a ir junto ou ajudar, apenas me lembro bem de gritos do autor do disparo “fala que não fui eu, fala que não fui eu!!!“. Mas apressados, fomos direto para o hospital da Santa Casa de Misericórdia. Erro. Sem médicos, sem atendimento, nada. Lembro do coitado do vigia se oferencendo a me ajudar passando gaze nos cortes, o tempo corria rapidamente.

Mas um grande erro aconteceu neste momento, erro que foi responsável por grande parte da repercussão distorcida do fato. Ciente de toda confusão envolvida e pensando apenas em me recuperar sem envolver polícia, pedi ao meu amigo que dissesse para meu pai que o tiro havia sido uma bala-perdida no bairro da Santa Rosa (me desculpo á todos do bairro, desde já) quando levava ele para casa, no Condomínio da Helibrás. Assim, pensava eu erradamente, evitaria maiores transtornos. Novamente segui meus instintos, era o jeito.

Já era pouco mais de meia-noite e em um gesto de grande lucidez meu amigo lembrou da Unimed, onde poderíamos ter ido antes, mas rapidamente chegamos e fui prontamente atendido.

Acionaram a polícia e minha família, eu ia totalmente consciênte para o raio-x e seguia o procedimento padrão. Destaque para a equipe médica, perfeita em todos os aspectos. Eu tomando consciência do “estrago” e ainda meio em choque vendo os rostos atônitos e o desespero escancarado de quem estava perto. Fora de risco, suturas, drenagens e mais suturas.

Sem saber do que ocorria fora do hospital, com a ação da polícia e tudo mais, contei na mesma noite para meu pai a versão original, completa. A polícia rapidamente encontrou o responsável e a arma. Sendo que ele nunca sequer perguntou como eu estava, como boa parte do pessoal que estava presente. Sem contar que a bala que eu havia tirado da arma era de chumbo, que quando disparada se espalha e com certeza teria me matado e também ao meu amigo.

Na manhã seguinte eu já estava em casa, mas sentindo as conseqüências e repercussões pelo clima pesado e feições. Principalmente suspeita de envolvimento com drogas, o ponto mais forte de tudo que aconteceu. Consumidor, traficante…

Minha família inclusive se questionando. Ofereci prontamente para fazer todos os testes para detectar a presença de drogas no meu sangue, tinha a cabeça limpa e consciência traqüila. Fora boatos de envolvimento com mulheres casadas, tentativa de suicídio e tudo mais que daria um belo piloto para programas sensacionalistas de TV.

Alguns meses de recuperação com a ajuda de profissionais altamente competentes que lembro sempre com muito carinho. Dedicação diária e também um desafio de conviver e aturar todo tipo de suspeitas e acusações possíveis e imagináveis de pessoas de todos os tipos. Falar e acusar é fácil, difícil foi encontrar alguém atrás de saber da verdade e se preocupando em saber a respeito da minha saúde. Mas haviam amigos verdadeiros e o apoio incondicional da minha família maravilhosa.

Senti por uns meses o olhar preconceituoso de uma sociedade mesquinha que vive de padrões. Senti o peso de uma deficiência e as dificuldades de quem não têm controle sobre todas funções motoras e órgãos humanos. Tudo isto unido com fofocas e boatos que se espalhavam e mutavam mais rápido do que o próprio incidente. Foi duro, duríssimo.

Mas tudo isso foi um desafio conjunto, lição grande da qual carrego muitas coisas positivas. Negativas? Não. Sei que não fui o primeiro e muito menos serei o último alvo desse tipo de coisa. Julgar as pessoas é um erro inserido na nossa cultura e sociedade. Criticar é milhões de vezes mais cômodo do que ajudar. E tive a ajuda de pessoas especiais, que guardarei para sempre no coração!

Agora como só as cicatrizes são visíveis e não são características de um tiro, pessoas não questionam tanto. Quando isto acontece, como havia falado no começo do texto, dependendo eu me extendo mais ou não. Não por medo, não por vergonha ou muito menos por culpa no cartório. Pelo simples fato de saber que era este meu caminho e bem ou mal tudo ocorreu como deveria. Aliás, bem melhor! Porque pelos pressentimentos era para ter sido muito mais doloroso.

Como eu costumo dizer, se eu tivesse culpa teria sido muito mais sério e poderia até mesmo ter morrido. Tenho o processo ainda “correndo” na justiça por danos físicos e morais, mas não me preocupo. Vingança jamais e no mesmo momento já havia perdoado o Wéscley pelo tiro. Quem vê meu pescoço não acredita como estou vivo, quem ouve a história não acredita que seja verdade. Você acredita?

Espero que tenha ficado claro, mesmo sem querer provar nada para ninguém. Afinal, acredito no amor da minha família, dos meus verdadeiros amigos e pessoas especiais que passaram e passarão pelo meu – agora – longo caminho! Não quero o mal de ninguém, quero sim paz e tranquilidade para viver minha vida feliz. E isto eu sou, e muito!

Repense seus valores e preconceitos, a vida é curta demais para ser disperdiçada com coisas fúteis. Espero que você seja feliz também, sempre!

Grato,

Michel P. Zylberberg
26/06/06

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